Cooperativa da Escuta em Narrativas Sonoras, por Marcelo Armani
Sinopse:
Apolônio de Carvalho e Belo Monte são duas peças sonoras que fazem parte do projeto Cooperativa da Escuta em Narrativas Sonoras. O título dessas peças se refere a dois assentamentos do MST e do MDT localizados respectivamente nos municípios de Guaíba e
Eldorado do Sul no RS. Ambas as peças são compostas pela captação da paisagem sonora local com a utilização de microfones shotgun, contato e subaquático. Essas paisagens são atravessadas pelas vozes de alguns habitantes que residem nesses assentamentos e que foram captadas durante oficinas e atividades de caminhadas sonoras realizadas com crianças e adolescentes de ambos os assentamentos. As composições guardam o registro da descoberta da escuta e da interação com a diversidade da textura e da atmosfera dos reinos sonoros que cohabitam um mesmo espaço temporal. Retratam a interação dos participantes com a escuta dos elementos/eventos sonoros que derivam dessa amplificação da paisagem, revelando a expressão dos envolvidos com os aspectos naturais e físicos do som. Os espectros de frequências e ruídos, a escuta expandida e a manifestação sociocultural presentes numa parte daquele grupo. A estrutura das peças traz conceitos e técnicas presentes na música concreta e na eletroacústica, tendo o campo da Arte Sonora como meio poético e expressivo.
Granulações, espaços diluídos e ampliados, repetições, panorâmicas, efeitos e edições sonoras transportam esse universo concreto, presente no registro original dos instantes dessa atividade, a um plano lúdico que amplifica a potencialidade da plástica sonora, propondo a composição de um outro reino tangente aos demais como expressão da linguagem artística pertencente a particularidade da pesquisa e trajetória do artista com o elemento sonoro.
Nessas peças, as vozes se deslocam pelas paisagens num constante movimento que assume um caráter de projeção e composição de uma sonosfera permeável, que registra ao longo da linha temporal, encontros entre o real e o ficcional. Um local onde a memória e o tempo se fundem por meio do som, formando um arquivo do registro efêmero dos anseios e da partilha de vivências coletivas.
Marcelo Armani é artista sonoro, técnico de som direto/microfonista em projetos cinematográficos, compositor e músico improvisador eletroacústico. Sua produção reside na ruptura com padrões tradicionais, na crítica aos modelos socioculturais como forma de denúncia dos oportunistas que fomentam o sistema do Estado de exclusão, as relações e os sintomas da crise contemporânea do caráter do indivíduo. Sua trajetória se insere na produção artística contemporânea do campo da arte sonora, transitando pelo vídeo, performance, fotografia, desenho e escultura. Na imersão da paisagem sonora ao grão sonoro como método para a composição de narrativas que amplifique as qualidades plásticas e espaciais do som. Nesse contexto, o artista tem participado de mostras, conferências e residências artísticas no Brasil e no exterior.
