SECRETARIA DA CULTURA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL,
OI E ASSOCIAÇÃO DE THEROLINGUÍSTICA APRESENTAM:

Curso “Utopias pretas: fabulações e ficção especulativa no cinema” propõe-se a pensar as estratégias de criação e invenção no cinema negro, a partir das conexões entre a imaginação de utopia pretas, o conceito de fabulação e o campo da ficção especulativa. Essas estratégias serão discutidas com base nos tensionamentos e inflexões do campo crítico decolonial e das pesquisas do cinema negro.

Partiremos do entendimento de ficção especulativa como um termo guarda-chuva para a conjunção de gêneros narrativos – como a fantasia, a ficção científica e o terror – que em sua construção ficcional partem da especulação para tensionar e ultrapassar os limites do realismo. No curso, pensaremos as narrativas de ficção especulativa no cinema a partir dos questionamentos que racializam e localizam social e historicamente os gêneros narrativos. Assim é importante pensar como gêneros (como a ficção científica e o terror) se fundaram na projeção do medo branco da vingança dos povos e etnias historicamente escravizados, subjugados, desumanizados e colonizados – no medo do “Outro”. E como as criações feitas por cineastas não brancos, em campos como o Afrofuturismo, subvertem essa lógica de criação. Assim, não mais o medo do “Outro” como ponto de especulação, mas os questionamentos e desejos de si (e do seu grupo) em imaginários especulativos.

Ao deslocarmos o conceito de fabulação para o cinema negro, a partir das discussões de Afrofabulação (Tavia Nyong’o) e Fabulação crítica (Saidiya Hartman), movem-se os locais de enunciação e o jogo do encontro entre “Eu” e “Outro”. Não mais de um “Eu” para um “Outro”, mas do enunciador negro ou negra fabulando e especulando a partir de si. Essa fabulação no cinema negro aponta concomitantemente para: a intensa afirmação de uma presença performativa negra e para a necessidade de preencher e/ou fissurar uma ausência histórica de imagens negras (seja pela recriação, seja pela aposta no invisível).

Por fim, trazemos para as discussões do curso o conceito de utopias pretas de Jayna Brown (2021). Para a autora, a criação dessas utopias pretas fora da ideia de humanidade (na qual a pretitude nunca foi incluída). Mais do que isso, essa utopia acontece na descentralização do humano como referência, na passagem da ideia de “pessoa” para (uma) “entidade” (entre outras), no apagamento dos limites do individualismo, no fato da carne preta misturar-se com outras carnes e com outros elementos (orgânicos e inorgânicos). Essas utopias pretas nos levam a imaginar com as múltiplas formas do cinema negro forjar-se fora da centralidade da representação (e até da presença) – pela ficção especultiva e pelas fabulações. Com suas imagens e sons, convidamos para a percepção de PretEspaços: descorpoficados e de desaparição (infinitos e de comunhão cosmológica).

Sobre a Ministrante: Kênia Freitas é pesquisadora e crítica de cinema. Fez estágios de pós-doutorado em Comunicação na UCB (2015-2018) e na Unesp (2018-2020). Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ (2015). Realizou diversas curadorias, entre elas a das mostras “Afrofuturismo: cinema e música em uma diáspora intergaláctica” (2015), “Diretoras Negras no Cinema brasileiro” (2017-2018), sessão “PretEspaços” na L MINA — Mostra Audiovisual Preta (2021) e sessão “Movimentos fabulares” na mostra Cinema Brasileiro: Anos 2010, 10 Olhares. Integrou as equipes curatoriais do IX CachoeiraDoc (2020) e Festival de Cinema de Vitória (2018). Escreve críticas para o site Multiplot!. Ministra cursos e oficinas sobre crítica, cinema negro, afrofuturismo e fabulações.”